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10/09/15

Woman V




Woman V - de Kooning 

10/07/15

Consulting the Oracle

'Consulting the Oracle', Caroline Walker, 2013

Magnífico. Se a pintura morreu mesmo, com este saiu da cova.

22/05/15

View from the Window at Le Gras


Segundo a Wikipedia, esta é a mais antiga fotografia que se conhece, data de 1826.

29/04/15



Não registei o autor. Da exposição Tesouros da fotografia portuguesa do século XIX, no museu do Chiado.

06/04/15

a morte dos mestres

Vale Abraão (1993), Manoel de Oliveira

21/10/14

conta-corrente (2)


6 de Junho de 1969

Ainda o Diário do Sacramento. Como é que o coeur mis à nu pode ser uma sedução? se puséssemos por escrito tudo o que nos passa por dentro, seríamos monstruosos. Sou absolutamente incapaz de me "confessar" seja a quem for, nem sequer a mim próprio. Há dias, em conversa com o Ramos Rosa (estava a Regina) falou-se de psicanálise. Insurgi-me contra essa baixeza de um indivíduo pôr tudo ao léu. Regina disse. "Tens medo." Mas não é verdade. Se me não ponho nu na rua, não é por medo. Se não alivio em público os gases intestinais, não é por medo. É um problema de decência, de respeito por nós, de equilíbrio, de autodomínio. Aliviar, pela confissão, o que nos pesa, é que é fraqueza. Aguento enquanto posso. Com dificuldade, às vezes. Mas vou aguentando. Há instantes em que um pequeno toque, um breve impulso mais nos dissolve na loucura. Conheço esses instantes. E então penso: "Vais enlouquecer." Até hoje, tenho ficado do lado de cá. Costumo dizer: do pescoço para baixo tenho tudo em saldo. Do pescoço para cima, tudo funciona bem. Isto o disse, aliás, ao D., que em certa entrevista admitiu que os problemas de "angústia" eram para o psiquiatra. É que ele já esteve internado... Quase todos os que me acusam, aliás, passam a vida a caminho do psiquiatra com as suas obsessõezinhas debaixo do braço. Possivelmente a arte tem sido para mim a grande catarse destas coisas. Antes de escrever Manhã Submersa sonhava muito com o seminário, com o desejo e impossibilidade de sair dele. Nunca mais sonhei. 

É boa. Sou contra a confissão e confessei-me. 


Virgílio Ferreira
conta corrente
Livraria Bertrand (1980)

15/09/14

Os navios


Da Imaginação até ao Papel. É uma difícil passagem, é um perigoso mar. A distância parece curta à primeira vista, e embora seja assim quão longa viagem é, e quão prejudicial por vezes para os navios que a empreendem.

O primeiro prejuízo provém da natureza assaz frágil das mercadorias que os navios transportam. Nos mercados da Imaginação a maior parte das coisas e as melhores são fabricadas de vidros finos e de cerâmicas transparentes, e com todo o cuidado do mundo muitas se partem no caminho, e muitas se partem quando as desembarcam para terra. E todo o prejuízo deste género é sem remédio, porque é impensável que o navio volte atrás para recolher coisas da mesma forma. Não há hipótese de encontrar a mesma loja que as vendia. Os mercados da Imaginação têm lojas grandes e luxuosas mas não de duração longa. As suas transacções são curtas, arrematam as suas mercadorias rapidamente e liquidam de seguida. É muito raro para um navio voltar e encontrar os mesmos exportadores com os mesmos géneros.

Um outro prejuízo provém da capacidade dos navios. Partem dos portos dos continentes prósperos sobrecarregados, e depois quando se encontrarem no alto mar vêem-se obrigados a deitar fora parte da carga para salvar o todo. De tal modo que quase nenhum navio consegue levar completos tantos tesouros quantos recolheu. As coisas despejadas são obviamente os géneros de menor valia, mas por vezes acontece que os marinheiros, na sua grande pressa, cometem erros e deitam ao mar objectos preciosos.

Mal chegam ao porto branco do papel e são precisos outros sacrifícios de novo. Vêm os oficiais da alfândega e examinam um género e pensam se devem permitir o desembarque; recusam deixar que se descarregue um outro género; e de certas tralhas apenas aceitam pequena quantidade. O lugar tem as suas leis. Nem todas as mercadorias têm a entrada livre e é estritamente proibido o contrabando. A importação de vinhos é impedida porque os continentes de que vêm os navios fazem vinhos e álcoois de uvas que crescem e amadurecem a temperatura mais generosa. Os oficiais da alfândega não querem para nada estas bebidas. São demasiado embriagadoras. Não são propícias para quaisquer cabeças. Para além disso existe uma companhia no lugar que tem o monopólio dos vinhos. Fabrica líquidos que têm a cor do vinho e o sabor da água, e deles se pode beber o dia inteiro sem que subam à cabeça. É uma velha companhia. Goza de grande reputação, e as suas acções estão sempre sobrevalorizadas.

Devemos, porém, ficar satisfeitos quando os navios entram no porto mesmo que seja com todos estes sacrifícios. Porque ao fim de contas com vigia e com muito cuidado limita-se o número dos recipientes partidos e atirados ao mar durante a viagem. Também, as leis do lugar e as normas alfandegárias são tirânicas em grande medida mas não de todo proibitivas, e grande parte da carga desembarca-se. Nem os oficiais da alfândega são infalíveis, e alguns dos géneros impedidos passam dentro de caixas fraudulentas em que se escreve uma coisa por fora e por dentro se tem outra, e importam-se alguns bons vinhos para banquetes excelentes.

Triste, triste é outra coisa. É quando passam alguns navios enormes, com joalharias de coral e mastros de ébano, com grandes bandeiras desfraldadas brancas e vermelhas, cheios de tesouros, que nem sequer se aproximam do porto quer por todos os géneros que levam serem proibidos, quer por o porto não ter bastante profundidade para os acolher. E seguem o seu caminho. Vão de vento em popa sobre as suas velas de seda, o sol fulgura na sua figura de proa em ouro, e afastam-se tranquila e majestosamente, afastam-se para sempre de nós e do nosso porto constrito.


Felizmente são muito raros estes navios. Apenas vemos dois, três durante a nossa vida inteira. E rapidamente os esquecemos. E depois de passarem alguns anos se algum dia — quando estamos inertes olhando a luz e ouvindo o silêncio — por acaso voltarem aos nossos ouvidos mentais algumas estrofes entusiásticas, de início não as reconhecemos e atormentamos a nossa memória para recordar onde as tínhamos ouvido antes. Dificilmente acorda a antiga memória e recordamos que estas estrofes são do cântico que salmodiavam os marinheiros, belos como heróis da Ilíada, quando passavam os grandes, os excelsos navios e avançavam indo — quem sabe para onde.

Konstandinos Kavafis
Poemas e prosas
Relógio D'Água (1994)

24/08/14

Alguns gostam de poesia

Alguns gostam de poesia.
Alguns –
quer dizer nem todos.
Nem a maioria de todos, mas a minoria.
Excluindo escolas, onde se deve
e os próprios poetas,
serão talvez dois em mil.

Gostam –
mas também se gosta de canja de massa,
gosta-se da lisonja e da cor azul,
gosta-se de um velho cachecol,
gosta-se de levar a sua avante,
gosta-se de fazer festas a um cão.

De poesia –
mas o que é a poesia?
Algumas respostas vagas
já foram dadas,
mas eu não sei e não sei, e a isto me agarro
como a um corrimão providencial.

Wislawa Szymborska
Instante
Relógio d'água

16/08/14

conta corrente

1-Fevereiro (sábado). Fiz cinquenta e três anos há dias. Como é óbvio, não acredito. Mas enfim, é a opinião do Registo Civil. Acabou-se, fiz cinquenta e três. É aliás uma idade inverosímil, a minha, desde os cinquenta. A "vergonha" da idade (que não tenho) deve vir daí. E então lembrei-me: e se eu tentasse uma vez mais o registo diário do que me foi afectando? Admiro os que o conseguiram, desde a juventude. Nunca fui capaz. Creio que por pudor, digamos, falta de coragem. Um romance é um biombo: a gente despe-se por detrás. Isto não. Mesmo que não falemos de nós (é-me difícil falar de mim). Aliás como os outros, desconheço-me. Talvez, também porque me evito. A verdade é que, quando me encontro bem pela frente, reconheço-me intragável. Mas enfim as virtudes são também desgostantes. De resto, sou pouco abonado. Segundo a Regina, as virtudes que tenho têm mesmo raízes viciosas: tolerância por fraqueza, interesse pela arte, por vaidade e coisas assim. Não digo que aconteça isso com todas as ditas virtudes; mas com algumas deve ser verdade. Chega. O meu "diário" está nas centenas de cartas aos meus amigos. Lembro as ao Lima de Freitas, L. Albuquerque, Costa Marques, Mário Sacramento, Eduardo Lourenço, alguns mais. Em todo o caso, essas mesmas, falsas. Excepto talvez quando sobre questões sérias. E ainda aí há quase sempre um disfarce ou o tempero do gracejo. Serei agora capaz? Tento. Seguro-me ao argumento de que me dá prazer ler os registos dos outros. Lêem-se sempre com curiosidade. Um motivo para insistir - satisfazer a curiosidade dos outros. Mas terei eu "outros"?

6-Fevereiro (quinta). Fui à Baixa. É-me quase uma aventura ir à Baixa. De qualquer modo, é um acontecimento - não sou da baixa, não sou mesmo da cidade, estou nela o mais possível dos arredores. Eu dizia, antes de vir para Lisboa, que traria a província comigo e me instalaria nela. (O Namora concordou com o meu dito a propósito do Aquilino.) Ilusão. Da província trouxe só o meu modo de estar na província, sem província para estar. O resultado é pouco cómodo. Sem convívio, chega-se a perder vocabulário. George de Sand, a propósito dos frades de Vale de Mosa, em Maiorca, dizia que a solidão estupidifica. Pois. A útil e verdadeira solidão é ser-se eu com. Não ser-se eu. Fui à Baixa. Conversei com Serafim Ferreira. Serafim Ferreira resiste-me dos amigos que me vão largando. Incapacidade minha de os segurar? Vivo aquém do ser natural e só aí eu sou natural e aproveitável. É aí que faço livros. Para além, na zona de convívio, um desastre. O que se passa onde faço os livros não é convivente. E raro, afinal, o quero convivente. A verdade de um artista não é quotidiana e o artista tem de sê-lo. Daí os desencontros. Trazer para o lado de cá o que é do outro lado, não. Não. Do lado de cá aprendi as regras do jogo. O Serafim. Firme. Por enquanto. Em epistolografia, aguento-me. É ainda o prolongamento daquilo onde funciono. De um a um, foram-se indo todos. Diz-me o Serafim que mesmo o Nelson de Matos. Óptimo. Concentrei-me em obstinação desde cedo - contra quase a vida toda que sempre me foi contra. Perfeitamente. Continuemos. Culpado eu - atenção. Exclusivamente. Creio-o a sério. Quase todos os que contactam comigo sofrem uma decepção. E decepcionado eu sempre com a decepção deles. Nada a fazer.

Virgílio Ferreira
conta corrente
Livraria Bertrand (1980)

08/08/14

Romi Horn


Romi Horn, Things That Happen Again: For Two Rooms, 1986.

C: As viewers, we'll literally act out what conceptually we comprehend as the subject of the work...

Horn: Yes. Narrative has no interest for me except in terms of how an experience unfolds for the viewer. That is the narrative of the experience of the work itself. To take another example: in Piece for Two Rooms you go into a space and see a simple disk. It doesn't look like much: it isn't, until you walk in and see that it is a three-dimensional cone-shaped object which is familiar but has certain subtle format qualities which make it different, which take away from it being familiar. It becomes memorable. Then you go into the next room and enact exactly the same experience, but of course it's unexpected and it's so many minutes later; it's a slightly younger experience in your life. Whereas when you walked into the first room, you had the experience of something unique, you can't have that a second time. That's it. It's a one-shot deal: it's not a reversible thing. When the viewer is going through this experience, that becomes the narrative: it's literally a piece of your life and it's the narrative of the work. (...) Knowledge is a funny thing: it often precludes experience.

Romi Horn 
Phaidon Press Limited
2000

25/07/14

This be the verse

They fuck you up, your mum and dad.   
They may not mean to, but they do.
They fill you with the faults they had
And add some extra, just for you.

But they were fucked up in their turn
By fools in old-style hats and coats,   
Who half the time were soppy-stern
And half at one another’s throats.

Man hands on misery to man.
It deepens like a coastal shelf.
Get out as early as you can,
And don’t have any kids yourself.

Philip Larkin

13/07/14

21/04/14

extremely gray



that's the way the world works. not black and white like you say. extremely gray

13/04/14

Quando puderes

Se não podes fazer da vida o que tu queres,
tenta ao menos isto,
quando puderes:
não a disperses em mundanas cortesias,
em vã conversa, fúteis correrias.

Não a tornes banal à força de exibida,
e de mostrada muito em toda a parte
e a muita gente,
no vácuo dia-a-dia que é o deles
- até que seja em ti uma visita incómoda.


Konstandinos Kavafis
90 e mais quatro poemas
ASA editores, 2001


22/03/14

Werner Herzog


A primeira vez que me cruzei com Werner Herzog foi no polícial Bad Lieutenant: Port Of Call New Orleans, que vi no Monumental com o meu Pai. Algo ficou deste filme, particularmente uma cena (spoilers).

Anos mais tarde voltei a encontrar-me com Herzog, desta feita com os seus documentários. A voz densa e carregada de Werner - o narrador - no seu bizarro inglês com sotaque alemão, cria uma atmosfera muito pessoal e cómica; é difícil não se gostar dele e do seu olhar curioso pelo mundo e pelos seus estranhos habitantes.

A imagem é do aclamado Grizzly Man, que conta a história de um homem que viveu várias temporadas sozinho entre ursos selvagens. A forma como Herzog se entranha na história, fazendo parte dela e alterando a percepção do seu desfecho, pode até dizer mais do autor do que do retratado. Tudo salteado com uma belíssima fotografia.

Amor à primeira vista.

13/03/14

auto-retrato

 Vitor Willing
Frank Auerbach
Walter Sickert
Francis Bacon
Rembrandt Van Rijn
Leon Kossoff


Pablo Picasso
Félix Vallotton

18/02/14

JVL


Uma das minhas fotografias favoritas. Faz parte do espólio (!) do meu grande amigo João Vasco Lopes (JVL).

A produção fotográfica do Vasco tem sido prolífera tendo em conta o curto espaço de tempo. 

As suas fotografias têm uma voz própria que aflora entre reflexos, sombras e jogos de luz que se misturam e "fazem crer". Existe uma narrativa escondida que muitas vezes escapa ao olhar apressado. Estas características digo pictóricas balançam num olhar ainda fresco que denota pureza no trato.  Estamos perante um processo cru e fundamental de descoberta.

Que se mantenha assim meu irmão.





08/01/14

Cerro os olhos para ouvir durante toda a noite,
e todo o mês, e recomeçando no interior
da minha vida - o sangue.
Amarga e difusa loucura do sangue
cercado pelo mundo - eu tudo sei.
Humildade e esgotamento e, quando
a boca estremece, tarefa e depois solidão.
Sei como se pensa obscuramente.
Vejo que a luz se encurva nos campos de urtigas,
e a mão se encurva na luz.
A mão que retém a faca e desliza
sobre a mesa ao encontro do pão maduro.
Porque eu amo a fome.

E eis que todo esse puro tempo passado
se levante, enquanto respiro debaixo da luz.
Com a dor dentro, levanta-se; com
um forte delírio e a luz imensa - e eu sei.
Ouçam: é neste país onde cheiro
um ramo de sal, a terra pútrida.
Amo a penumbra de uma cara, a brancura
parada de um sorriso no meio da água
profundamente esquecida - sei
tudo, tudo.
Que nada existe e as coisas nascem no tocar
de minha mão inundada.
E é preciso esperar enquanto se morre,
e fica o campo sob o céu que se queima
preciosamente.
Tenho agora a idade - e sei tudo.
Digo: a minha alegria é tenebrosa.

E eu desejaria levantar-me levemente
sobre as paisagens que se enchem de chuva
apaixonada.
Desejaria estar em cima, no meio da alegria,
e abrir os dedos tão devagar que ninguém sentisse
a melancolia da minha inocência.
Tanto desejaria ser destruído
por um lento milagre interior.

Cegar com o rosto contra um ramo abrupto
de relâmpagos.
Eu sei. Quero dizer: eu amo
essa morte no meio da luz, entre crisálidas e gotas,
à noite, de dia -
quando o mês se extingue num supremo amadurecimento.

Herberto Helder
2001
Ou o poema contínuo 
Assírio & Alvim


10/12/13

Calor

O vento, rasga o calor,
corta em dois o calor,
fá-lo em pedaços.

O fruto não pode cair
neste ar espesso.
o fruto não pode tombar no calor que o empurra para cima, embota
as pontas das pêras,
arrendonda as uvas.

Corta o calor -
Lavra através dele.
atirando-o para cada lado
do teu caminho.

Gottfried Benn
(1886-1956)
Poesia do Século XX, Editorial inova/porto, Jorge de Sena, 1978

03/12/13

Ontem deu-me de repente na cabeça escrever sobre o meu amor. E, apesar disso, não vou fazê-lo. Que força os preconceitos têm! Libertei-me deles; mas penso nos que são seus escravos e que o meu papel pode cair à frente dos seus olhos. Retraio-me. Que mesquinhez. Não obstante, como símbolo deste momento vou registar a letra - T -.

Konstandinos Kavafis
9-11-1902
Páginas Íntimas, Hiena Editora, 1994

 .