08/01/14

Cerro os olhos para ouvir durante toda a noite,
e todo o mês, e recomeçando no interior
da minha vida - o sangue.
Amarga e difusa loucura do sangue
cercado pelo mundo - eu tudo sei.
Humildade e esgotamento e, quando
a boca estremece, tarefa e depois solidão.
Sei como se pensa obscuramente.
Vejo que a luz se encurva nos campos de urtigas,
e a mão se encurva na luz.
A mão que retém a faca e desliza
sobre a mesa ao encontro do pão maduro.
Porque eu amo a fome.

E eis que todo esse puro tempo passado
se levante, enquanto respiro debaixo da luz.
Com a dor dentro, levanta-se; com
um forte delírio e a luz imensa - e eu sei.
Ouçam: é neste país onde cheiro
um ramo de sal, a terra pútrida.
Amo a penumbra de uma cara, a brancura
parada de um sorriso no meio da água
profundamente esquecida - sei
tudo, tudo.
Que nada existe e as coisas nascem no tocar
de minha mão inundada.
E é preciso esperar enquanto se morre,
e fica o campo sob o céu que se queima
preciosamente.
Tenho agora a idade - e sei tudo.
Digo: a minha alegria é tenebrosa.

E eu desejaria levantar-me levemente
sobre as paisagens que se enchem de chuva
apaixonada.
Desejaria estar em cima, no meio da alegria,
e abrir os dedos tão devagar que ninguém sentisse
a melancolia da minha inocência.
Tanto desejaria ser destruído
por um lento milagre interior.

Cegar com o rosto contra um ramo abrupto
de relâmpagos.
Eu sei. Quero dizer: eu amo
essa morte no meio da luz, entre crisálidas e gotas,
à noite, de dia -
quando o mês se extingue num supremo amadurecimento.

Herberto Helder
2001
Ou o poema contínuo 
Assírio & Alvim



16/12/13

Nestes dias não tenho tido absolutamente nada, para além de trivial, que consiga transmitir.

Um espectador entretido mas recatado.

Esta calma aparente é no entanto contraposta por uma abundância de sentimentos.

Nada a acrescentar.

10/12/13

Calor

O vento, rasga o calor,
corta em dois o calor,
fá-lo em pedaços.

O fruto não pode cair
neste ar espesso.
o fruto não pode tombar no calor que o empurra para cima, embota
as pontas das pêras,
arrendonda as uvas.

Corta o calor -
Lavra através dele.
atirando-o para cada lado
do teu caminho.

Gottfried Benn
(1886-1956)
Poesia do Século XX, Editorial inova/porto, Jorge de Sena, 1978

03/12/13

garfo / iogurte

hoje comi um iogurte com um garfo (na ausência de uma colher) e acabou por ser bastante mais exequível do que imaginava. da teoria à prática
Ontem deu-me de repente na cabeça escrever sobre o meu amor. E, apesar disso, não vou fazê-lo. Que força os preconceitos têm! Libertei-me deles; mas penso nos que são seus escravos e que o meu papel pode cair à frente dos seus olhos. Retraio-me. Que mesquinhez. Não obstante, como símbolo deste momento vou registar a letra - T -.

Konstandinos Kavafis
9-11-1902
Páginas Íntimas, Hiena Editora, 1994





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