18/02/14
O que um tipo é
Agora sou um tipo entusiasmado. Acho que as coisas no estudo tão bem encaminhadas e que vou conseguir fazer aquilo que quero.
Sou (também) um tipo feliz. E a razão para isto é simples: sou um tipo feliz porque sou um tipo com sorte. Agora quando ouço dizer que a sorte só favorece os audazes, faço aquele sorriso maroto. Adorava acreditar nisto porque acho que me sentiria um tipo bem mais à maneira. Um tipo audaz e tal. A verdade é que não acredito. E duvido que aquele vagabundo que ganhou o euro milhões (e que o estoirou e dois dias) acredite. Se eu ganhasse o euromilhões não me iria considerar um tipo audaz. Considerar-me-ia, e isso sem duvida alguma, um tipo cheio de papel. No fundo, o que um gajo é, varia muito. Mas a verdade é esta: - Se eventualmente eu ganhasse o euromilhões, pensar no tipo de tipo que sou não iria certamente ocupar muitos dias na minha agenda.
Florença, 5 de Junho de 2008
oh well, fast-foward até hoje. não ganhei o euromilhões mas estou mais audaz que nunca.
oh well, fast-foward até hoje. não ganhei o euromilhões mas estou mais audaz que nunca.
JVL
Uma das minhas fotografias favoritas. Faz parte do espólio (!) do meu grande amigo João Vasco Lopes (JVL).
A produção fotográfica do Vasco tem sido prolífera tendo em conta o curto espaço de tempo.
As suas fotografias têm uma voz própria que aflora entre reflexos, sombras e jogos de luz que se misturam e "fazem crer". Existe uma narrativa escondida que muitas vezes escapa ao olhar apressado. Estas características digo pictóricas balançam num olhar ainda fresco que denota pureza no trato. Estamos perante um processo cru e fundamental de descoberta.
Que se mantenha assim meu irmão.
com os meus melhores cumprimentos
Considero intolerável que se cumprimente alguém sem olhar nos olhos, a não ser por motivos de força maior. Como coçar os olhos depois de mexer em pimenta.
Mais do que uma lacuna na educação revela falta de carácter.
O meu Avô também dizia que não se davam apertos de mão com mão mole, mas eu não sou tão exigente.
Se dessem um aperto de mão mole sem olhar nos olhos ao meu Avô era logo lista negra.
Mais do que uma lacuna na educação revela falta de carácter.
O meu Avô também dizia que não se davam apertos de mão com mão mole, mas eu não sou tão exigente.
Se dessem um aperto de mão mole sem olhar nos olhos ao meu Avô era logo lista negra.
11/02/14
03/02/14
08/01/14
Cerro os olhos para ouvir durante toda a noite,
e todo o mês, e recomeçando no interior
da minha vida - o sangue.
Amarga e difusa loucura do sangue
cercado pelo mundo - eu tudo sei.
Humildade e esgotamento e, quando
a boca estremece, tarefa e depois solidão.
Sei como se pensa obscuramente.
Vejo que a luz se encurva nos campos de urtigas,
e a mão se encurva na luz.
A mão que retém a faca e desliza
sobre a mesa ao encontro do pão maduro.
Porque eu amo a fome.
E eis que todo esse puro tempo passado
se levante, enquanto respiro debaixo da luz.
Com a dor dentro, levanta-se; com
um forte delírio e a luz imensa - e eu sei.
Ouçam: é neste país onde cheiro
um ramo de sal, a terra pútrida.
Amo a penumbra de uma cara, a brancura
parada de um sorriso no meio da água
profundamente esquecida - sei
tudo, tudo.
Que nada existe e as coisas nascem no tocar
de minha mão inundada.
E é preciso esperar enquanto se morre,
e fica o campo sob o céu que se queima
preciosamente.
Tenho agora a idade - e sei tudo.
Digo: a minha alegria é tenebrosa.
E eu desejaria levantar-me levemente
sobre as paisagens que se enchem de chuva
apaixonada.
Desejaria estar em cima, no meio da alegria,
e abrir os dedos tão devagar que ninguém sentisse
a melancolia da minha inocência.
Tanto desejaria ser destruído
por um lento milagre interior.
Cegar com o rosto contra um ramo abrupto
de relâmpagos.
Eu sei. Quero dizer: eu amo
essa morte no meio da luz, entre crisálidas e gotas,
à noite, de dia -
quando o mês se extingue num supremo amadurecimento.
Herberto Helder
2001
Ou o poema contínuo
Assírio & Alvim
e todo o mês, e recomeçando no interior
da minha vida - o sangue.
Amarga e difusa loucura do sangue
cercado pelo mundo - eu tudo sei.
Humildade e esgotamento e, quando
a boca estremece, tarefa e depois solidão.
Sei como se pensa obscuramente.
Vejo que a luz se encurva nos campos de urtigas,
e a mão se encurva na luz.
A mão que retém a faca e desliza
sobre a mesa ao encontro do pão maduro.
Porque eu amo a fome.
E eis que todo esse puro tempo passado
se levante, enquanto respiro debaixo da luz.
Com a dor dentro, levanta-se; com
um forte delírio e a luz imensa - e eu sei.
Ouçam: é neste país onde cheiro
um ramo de sal, a terra pútrida.
Amo a penumbra de uma cara, a brancura
parada de um sorriso no meio da água
profundamente esquecida - sei
tudo, tudo.
Que nada existe e as coisas nascem no tocar
de minha mão inundada.
E é preciso esperar enquanto se morre,
e fica o campo sob o céu que se queima
preciosamente.
Tenho agora a idade - e sei tudo.
Digo: a minha alegria é tenebrosa.
E eu desejaria levantar-me levemente
sobre as paisagens que se enchem de chuva
apaixonada.
Desejaria estar em cima, no meio da alegria,
e abrir os dedos tão devagar que ninguém sentisse
a melancolia da minha inocência.
Tanto desejaria ser destruído
por um lento milagre interior.
Cegar com o rosto contra um ramo abrupto
de relâmpagos.
Eu sei. Quero dizer: eu amo
essa morte no meio da luz, entre crisálidas e gotas,
à noite, de dia -
quando o mês se extingue num supremo amadurecimento.
Herberto Helder
2001
Ou o poema contínuo
Assírio & Alvim
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